Um dia lindo, cheio de tristeza

Céu azul. O sol brilha forte. Uma maravilha. Nem tanto. Na ambulância, a Ana chora de dor. Os paramédicos fazem os primeiros socorros. Medem a pressão. Perguntam o que aconteceu. Se está sangrando. É quase 7 da manhã.

Tivemos que sair às pressas de Monte Santo de Minas [a pouco mais de 200km de Campinas]. Na madrugada, as contrações se iniciaram. Inesperadamente. Não era a hora. Queríamos acreditar que as dores intermitentes que ela sentia na lombar era por causa do colchão. Ledo engano. Tivemos que partir imediatamente. O destino seria o Caism da Unicamp. Mas não deu. Na metade do caminho, tivemos que pedir ajuda no posto de atendimento da concessionária da Rodovia Campinas-Mogi Guaçu. Imediatamente nos levaram para o hospital mais próximo, a Santa Casa de Mogi Guaçu. O Anthony e o Lukas, meu irmão, seguiram viagem com o Fabinho, tio da Ana, que decidiu viajar com a gente de última hora.

Na emergência há poucas pessoas. Na maca, Ana é levada para o interior do hospital. Fico na recepção para preencher a papelada. Estou longe de casa. Preciso preencher uma série de fichas. A garota da recepção parece não estar acostumada com o frenesi do momento. Respondo as mesmas perguntas por mais de três vezes. Três vezes. A adrenalina está ativa. Meu corpo treme. Não queria estar ali. Muito menos receber um aperto de mão e os parabéns dos paramédicos, que retornaram depois de deixar Ana Paula no centro cirúrgico. Parabéns por quê? Não é o momento. Serena não está pronta.

Resolvida a burocracia do plano de saúde, caminho afoito pelos corredores a procura de Ana. Tenho pressa. A encontro na sala de preparação para o parto. Há uma desconexão entre os membros da equipe do plantão. O ginecologista/obstetra (geo) e a enfermeira não se conversam. O clima é tenso. Ao telefone, alguém solicita uma vaga na UTI neonatal. Está lotada. Pedem para dar um jeito, pois a paciente será atendida pelo particular. Deitada, Ana pede para ir ao banheiro. O geo nega. Ela insiste. Ele não permite. Sem poder segurar, ela urina ali mesmo, na cama. O médico pede para cancelarem o medicamento que inibiria as contrações, dando uma possibilidade para que o corticoide, essencial para desenvolver com rapidez o pulmão da Serena, que ainda não estava formado por completo, agisse no organismo. Pelo “conhecimento” dele, o líquido que Ana soltou não era urina, mas a bolsa que havia estourado. Ana rebate. Estava convicta que não era a bolsa. De fato, no caminho paramos no posto de gasolina para abastecer. Ela queria ir ao banheiro, mas como estava sangrando muito teve medo de que Serena nascesse lá. Segurou.

O calvário seguiu. Uma hora se passa. A única evolução foi a sacrificial mudança de cama. Banho tomado. Roupas trocadas. E mais uma transferência de leito. Dessa vez para um tenebroso ambiente, onde seria feito o parto. Comparando com o nascimento do Anthony, o ambiente ali era terrível. Ana sobe na maca. Tem as pernas amarradas — sem necessidade, pois não recebeu anestesia. Uma enfermeira segura as mãos dela. Fico atrás, não podendo me mexer. A tensão aumenta. O obstetra chega, a enfermeira coloca as luvas nele. É evidente que eles têm algum tipo de problema. Um deles reclama que o dia está “zicado”. Chorando, Ana pede para mudar de posição, pois estava desconfortável. Não permitem. Insiste para que não seja feita a episiotomia. O médico não dá ouvidos. Pega um instrumento, uma espécie de uma pinça gigante. Ana pergunta o que ele faria com aquilo. Sem respostas. Estoura a bolsa, que estava intacta. Não havia estourado como ele havia dito. A enfermeira indaga:

— O senhor não falou que a bolsa tinha estourado?

Silêncio. Ele não responde. Continua o procedimento. Pede para Ana fazer força na próxima contração. Ela faz toda a força possível. Só observo, envolto de nervosismo. Quando tento me mexer, a enfermeira me faz voltar para onde eu estava. Serena vem devagar. Está pélvica. O médico reclama.

— Nem pra ajudar. Ela está pélvica.

Quero reagir, mas não consigo. Serena chega às 9 da manhã. O médico a coloca de costas para nós. É possível ver o pequeno corpo se mexendo ao respirar. Ana a toca e a abençoa. Rapidamente, ele a pega sem nenhum cuidado e entrega a uma equipe que já estava pronta para recebê-la e fazer os primeiros socorros. Dentro da incubadora, Serena recebe aspirações, oxigênio. Foi quase 1 hora.

Fiquei por ali, no corredor. Ana é levada para o quarto. Logo, passam com a Serena dentro da incubadora em direção da UTI. Orando, acompanhei. Mas não pude entrar. Entreguei nas mãos de Deus. Pedi orações. A nossa vontade era tê-la nos braços. Mas Deus tem seus planos, que destoam dos nossos. Mas servem para um propósito maior, que demoramos a entender.

Continuamos esperançosos. As horas passavam com lentidão. Por conta da internação, eu teria que voltar à Campinas para liberar as guias do plano de saúde. Já no carro, pronto para sair, minha sogra me liga e coloca no viva voz. É a médica titular da UTI neonatal. Volto correndo para o hospital. Notícia desoladora. O que mais temíamos, aconteceu. Após três paradas cardíacas, Serena não resistiu. Lutou por 3 horas e meia. Mas Deus a queria perto dele.

No início da tarde, a mesma doutora nos permitiu ver Serena. O silêncio do lugar foi rompido pelo choro. Ela parecia estar dormindo. Seu semblante refletia o nome que escolhemos. Perfeita. Tivemos o nosso momento com ela. Mas não foi o último. Os dias subsequentes daquele 1º de maio de 2017 foram complexos, sombrios, confusos.

* Nos 2 dias que estivemos na Santa Casa de Mogi Guaçu, o médico que fez o parto não visitou Ana Paula no quarto. E não foi por falta de tempo, pois como estávamos ao lado da recepção era possível ouvir a voz dele pelo corredor. Somente a médica do plantão da manhã do dia 2 de maio foi ver como ela estava.

** Este texto fará parte do livro “Tudo mudou em 3 dias”, previsto para o segundo semestre de 2020.

jornalista. autor do livro “A Indústria da Música Gospel”. escreve no @ RAPresentando, Sounds and Colours, UpdateOrDie, Rapzilla, Per Raps e Gospel Beat.

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