[entre perrengues e aprendizados]

As coisas decidiram dar errado na mesma semana. A pandemia do coronavírus foi decretada. Um processo de contratação teve de ser interrompido. Tivemos que sair da casa que estávamos há 6 anos. De uma hora para outra o aluguel inflacionou. Sem condições, saímos às pressas. Fomos para outra temporária — de passagem mesmo. Tudo ficou amontoado num lugar. Nós ficamos em outro. A imunidade baixou. Uma infecção de garganta me pegou por dias. A raiva se juntou ao estresse com uma adição de perda da esperança. Crises de ansiedade. Meu cachorro morreu. Cecília desenvolveu uma dermatite [alergia de terra, mosquitos e etc]. Descobri que meu coração é um pouco maior que o normal — exames feitos e vida que seguem sem esportes de auto-rendimento. As crianças se cansaram de ficar dentro de casa. O dinheiro dos freelas minguou. Os freelas também. AMIGOS me ajudaram. Vendi livros. Muitos deles comprados por AMIGOS. Recebi vários, vários e vários NÃOs.Os SIM eram de contas à pagar.

Pensei que não conseguiria resistir. Fiquei irritado, chato, nervoso, sem perspectivas. Fiz terapia. Me culpei por seguir minhas escolhas, principalmente as profissionais. Estava completamente vulnerável por não conseguir nada — e não tinha o que fazer, senão esperar a pandemia passar. Olhei apenas para o meu umbigo. “Não se desespera tá todo mundo assim”, dizia minha mãe, repetia minha irmã e Ana reafirmava. Será mesmo? É! Tinha gente em situação pior que a minha. Em família, nos ajudamos. Uns carregando o fardo dos outros. O dinheiro era curto, a casa pequena, mas o amor gigantesco. Choramos, sorrimos, tivemos medo. O vírus não levou somente o dinheiro. Tirou milhares de vidas, inclusive de um colega da faculdade e do meu tio Carlinhos também. Sem palavras…

O cenário já era desesperador, porém ficou um pouco pior. Às 9h, de uma segunda-feira, quase no final de junho, Ana Paula [minha esposa que estava segurando as pontas] é demitida — por videoconferência mesmo. Mais um balde de água gelada acompanhada de cubos de gelo, pinguins e urso polar. O que vamos fazer agora? Quase 2 horas depois uma ligação trouxe um pequeno alento: “sabe aquela vaga lá tá aberta ainda, mas por enquanto é freela tá afim?”. — Agora, se possível! Parece que uma lamparina foi acesa lá no fim do túnel. A chama da esperança ficou um pouco mais forte. A terapia me ajudou bastante. Reiniciamos, dando um passo de cada vez, bem devagar. Ainda é tudo muito incerto, como a vida sempre foi. Nunca houve facilidade. E provavelmente não haverá. A luta é constante, principalmente com o nosso ego. Não queremos depender de terceiros, porém em determinados momentos temos que ceder, chorar, ficar só. A turbulência está amenizada, mas não passou. Nem tudo é vitória. Não sei quais são os propósitos — nunca sabemos, e posso dizer com propriedade porque tenho uma certa “experiência”. A lição que fica é: valorizar mais a vida, a amizade, o amor, e deixar de lado as mesquinharias.

Apesar dos pesares, Deus foi bom o tempo todo. Colocou pessoas incríveis na minha vida. Elas fizeram, e fazem, toda diferença. É o que escreveu Salomão em Provérbios 17.17: “Em todo o tempo ama o amigo e para a hora da angústia nasce o irmão”.

jornalista. autor do livro “A Indústria da Música Gospel”. escreve no @ RAPresentando, Sounds and Colours, UpdateOrDie, Rapzilla, Per Raps e Gospel Beat.

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