Não tínhamos opção de escolha. Os tênis eram sempre os mesmos: Arcadia, Le Cheval. Todas as vezes meu pai dizia que da próxima seria um de marca. Sinceramente, não entendia o que significava. E nunca havia um pedido de qual modelo queríamos. Usávamos o que as condições possibilitava — e os que ganhávamos de terceiros. Sem problemas. Na adolescência, ganhei o primeiro Nike da minha tia. Foi incrível.

Quando a gente cresce, até mesmo sem querer, é engolido pela imposição de ter para ser. Se você não tem, você não é. Esse pensamento levou amigos de infância para o crime, cadeia, morte. Não tínhamos muito, mas tínhamos. Por causa do dinheiro curto, ia com minha mãe comprar tênis nas lojinhas do lado do terminal mercado. Eram mais baratos e dava para comprar no crediário. O preço condizia com o produto. Por não ser original durava pouco. Lembro de um Reebok azul e cinza; e de uma chuteira society Umbro prateada. Ambos duraram pouco tempo. Os dois viraram motivo de zoação, principalmente no futebol, porque não serem originais. Triste realidade.

Quando comecei ganhar algum dinheiro, comprei uma bermuda na loja mais hypada da cidade: Hot Point. Mas a peça não era da marca que nomeava o estabelecimento. Então, duvidaram que tinha comprado lá. A nota confirmou. As dúvidas persistiram. Segui. Quando o dinheiro aumentou, comecei a comprar Air Forces, uns Adidas, camisetas G-Unit e MAIS. Tudo isso pra mostrar que eu também podia TER. Agora, tudo isso não faz sentido.

O episódio das últimas semanas envolvendo o MC Caveirinha — um menino promissor, preto, de periferia (que até pouco tempo estava passando veneno com sua família), que foi esnobado por um youtuber playboy por usar roupas/tênis falsificadas — me trouxe esses acontecimentos à memória (ainda mais depois de ouvir um comentário inóspito. O sujeito disse que o indivíduo estava certo em cobrar o Caveirinha por não portar peças originais). É fato que ninguém usa falsificações por que quer. Tudo passa pela questão financeira. E vivendo num país desigual, onde o consumo é constantemente incentivado, não tem como fugir. O ponto de atenção é: até quando seremos engolidos pela indústria? Que sejamos conscientes. Que possamos conscientizar, principalmente a molecada que Nike e Adidas são apenas marcas que querem lucrar. Brigar por preferências não leva a lugar nenhum. Andar com um kit chavoso é bem F@&$, mas quem você é não se limita a isso.

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