EU SIMPLESMENTE RI

Campinas, 24 de outubro de 2020, às 15h: nóis de carro no centro. Ana no piloto. Eu de passageiro [como é de lei]. Anthony diz: pai coloca aquela música que a gente tava ouvindo. “Gueto Feroz” do Ramonzin ecoa nos falantes.

– É essa, pai.

Aumento o volume. O sinal fecha. O Toyota prata na faixa da direita está quase pareado com a gente. O som chama a atenção do motorista – com um sorriso de palhaço estampado na máscara. Ele olha para trás 1 vez. Olha de novo com mais atenção. Se assusta com a minha face preta e minha cabeça coberta por uma durag. Provavelmente não viu quem estava dirigindo nem as crianças no banco de traseiro. Rapidamente, tira o pé do freio para ficar mais distante. A gente ganha as ideias. Dou risadas. O sinal abre. Ele segue em frente. Acelera. Seguimos o fluxo à esquerda pra pegar na avenida. Segundos depois, o carro ressurge para confirmar o que já sabíamos: o cidadão de bem se sentiu ameaçado. Tentou dar um perdido. Mas logo na sequência voltou à via principal para fazer o mesmo trajeto que o nosso nos 5 km seguintes. Foi trágico [pela imbecilidade do ser humano] e cômico [pela mesma imbecilidade]. Por isso, EU SIMPLESMENTE RI.

“Sou consciente do meu valor

De onde eu vim e o que eu sou

A respeitar quem me respeitou

E a desprezar quem me desprezou

Agradecer quem me ajudou

Sou o neguim que num se arriô”

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