Bastidores: Kirk Franklin no Brasil (2008)

Era 30 de maio de 2008. Cheguei em São Paulo no final do dia para participar de uma entrevista coletiva com um dos maiores nomes da música gospel contemporânea: Kirk Franklin (aquele que recentemente participou do disco e dos cultos do Kanye WEST). Essa não seria a primeira vez dele no Brasil, mas o público estava na expectativa. Da estação Portuguesa/Tietê fui em direção para algum lugar que não me lembro. Os mapas e gps dos celulares ainda não existiam. Na real, estava perdido. Então, peguei um táxi em direção ao Hilton Hotel no Morumbi. Pelo jeito estava do outro lado da cidade. A viagem foi longa. O custo da corrida foi de 40 reais (uma fortuna para quem estava com dinheiro contado). Cheguei a tempo. Toda a imprensa (chamada) gospel estava presente. Eu usei meu único terno, que tinha comprado meses antes para o meu casamento. Para gravar a entrevista, peguei emprestado um aparelho MP3, porque estava sem fita (aquelas pequenas) para o meu gravador. Aos poucos a sala se encheu.

Os organizadores do evento abriram a conversa falando do dinheiro investido para trazer Kirk para o show no Anhembi: 1 milhão de reais. Na sequência também falaram Gerson Isidoro, da banda Kadoshi, e os rappers do extinto One Face, que ao serem perguntados como seria abrir um show para um grande astro mundial do gospel, responderam que na realidade o Kirk Franklin que ia fechar o show deles. Uma das recomendações era para não fazermos perguntas relacionadas a um problema que estava sendo levantado pela mídia evangélica norte-americana e o artista não queria que falássemos sobre o assunto – ninguém disse do que se tratava (mas tinha a ver com a irmã dele, que recentemente tinha saído da prisão). Todos estavam na espera. Cada vez que a porta abria, o alvoroço aumentava. Até que alguém confirmou a chegada dele.

A grande maioria correu para o hall em frente a sala. Uma multidão de jornalistas o cercavam, mas todos só observavam porque a RIT TV tinha exclusividade. Então, ele estava cumprindo o “acordo”. Assim que acabou, ninguém perdeu a oportunidade de tietar, inclusive eu. Os celulares com câmeras boas er escassos. As cybershots estavam no auge. Pedi para um colega registrar minha foto (eu todo social, e ele no melhor estilo caribenho). Depois do tumulto, todos se acomodaram em seus lugares.

A rodada de perguntas começou. Uma moça negra fazia as traduções. Alguém citou uma frase de algum filme que dizia que ninguém passava pelos EUA sem cantar o blues. Em seguida, o repórter perguntou se Kirk iria cantar um samba por estar no Brasil. “Só se alguém me ensinar, porque não quero estragar a música”, respondeu.

Eu fiz uma pergunta relacionada à inspiração para compor as músicas. Antes de me reponder (o único jornalista negro no ambiente), Kirk Franklin me olhou com atenção e deu um sorriso. Só lembro de parte da resposta: “Deus é o escritor e eu sou apenas a caneta que coloca as palavras no papel”. Após o final da coletiva. Peguei o rumo de volta para Campinas. No outro dia, 31/05, sábado, tinha que bater ponto no meu emprego de atendente de call center, às 6hs da manhã. Mas a noite já estava de volta a São Paulo para curtir um dos melhores shows que tive o prazer de assistir. A noite estava fria, porém a performance foi bem quente.

No fim das contas, o MP3 (uma tecnologia avançada naquele tempo) bugou e o áudio da entrevista foi perdida.

jornalista. autor do livro “A Indústria da Música Gospel”. escreve no @ RAPresentando, Sounds and Colours, UpdateOrDie, Rapzilla, Per Raps e Gospel Beat.

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